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quarta-feira, 31 de julho de 2013

HISTÓRICO DE NOSSAS IDÉIAS SOBRE A MENTE, CÉREBRO E APRENDIZAGEM.

Nossa idéia de como a mente funciona e sua origem orgânica no cérebro data de tempos muito remotos. Todos nós temos de certa forma uma psicologia intuitiva, ou seja, temos uam maneira de intuir sobre pensamentos, emoções, sentimentos e prever ações tanto de nós próprios quanto de outros, no que chamamos de “Teoria da Mente”. Nem sempre aquilo que nós pretendemos ser esta de acordo com o que somos, em um processo denominado “dissonância cognitiva” (Gazzaniga e Heatherton, 2005). Em neurociências temos um jargão que dizemos sobre a mente: existem ao menos três tipos de mentes que lutam o tempo todo dentro de nós para ser a mais relevante, aquilo que nós pensamos ser, aquilo que nós gostaríamos de ser e aquilo que nós realmente somos. Para ilustrar estes processos basta pensarmos que colocamos a mão em nossas cabeças na fronte quando precisamos tomar uma decisão, exatamente o local do córtex pré-frontal, área de tomada de decisões, de planejamento, o cérebro executivo. Outra maneira de ilustrar a questão vem dos homens do neolítico. Um crânio humano submetido a uma trepanação (orifícios e perfurações na caixa craniana) encontrado na Dinamarca e datando de 7000 a.C. indica que os povos do neolítico já sabiam de alguma forma a existência e importância do cérebro para a fisiologia e o comportamento humano, este crânio apresentava as bordas do orifício cicatrizadas o que indica que o indivíduo sobreviveu muitos anos após a cirurgia (Clower e Finger, 2001). No “Papiro cirúrgico de Edwin Smith” escrito no Egito antigo, Século XVII a.C. temos anotações sobre 30 casos clínicos de traumas cranioencefálicos e medulares relacionando lesões cerebrais a disfunções de diversas partes do corpo ou ainda mudanças de comportamento e humor como hemiplegias, paralisias, incontinências urinárias (Finger, 1994). A neurociência tem reforçado a idéia inicialmente proposta por Hipócrates (460-379 a.C.) de que o estudo adequado da mente começa pelo entendimento de como o cérebro funciona, segundo Hipócrates (2003): "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. É especificamente o órgão que nos habilita a pensar, ver e ouvir, a distingüir o feio do belo, o mau do bom, o prazer do desprazer. É o cérebro também que é a sede da loucura e do delírio, dos medos e sustos que nos tomam, muitas vezes à noite, mas ás vezes também de dia; é onde jaz a causa da insônia e do sonambulismo, dos pensamentos que não ocorrerão, deveres esquecidos e excentricidades." Aristóteles divergiu erroneamente deste ponto de vista, afirmando que o coração era a sede da mente e que o cérebro funcionava apenas como um refrigerador para o sangue (Teoria do Radiador). No final ele afirmava que ao menos as emoções teriam sua fonte no coração, de onde deriva o símbolo do amor um coração, que na realidade é ativado em sua função simpática pelo nervo Vago, nervo que controle as vísceras e é ativado por núcleos no encéfalo. Galeno (130 – 200 d.C.) e posteriormente Nemésio (320 d. C.) desenvolveram a idéia de que os ventrículos seriam os responsáveis pelas operações mentais, da sensação à memorização e durante toda a idade média a noção de que nos ventrículos circulavam os espíritos, favorecidos pela igreja católica, predominou no Renascimento até a idéia apresentada posteriormente de um modelo hidráulico para o funcionamento da mente, desenvolvida por Descartes, que acreditava que o “espírito animal” fluía pelo corpo a ativar e regular o comportamento e as ações, e a ausência ou pouca atividade dos espíritos poderiam induzir ao sono. Apenas nos séculos XIX, com a elucidação da Teoria Celular por Theodor Schwann e os trabalhos pioneiros de coloração e descrição das células nervosas, respectivamente, por Camilo Golgi e Santiago Ramón y Cajal é que foi possível uma idéia mais acurada sobre a estruturação e o funcionamento do tecido nervoso (Finger, 1994). Ainda no século XIX, a escola Frenologista (freno do latin significa alma) começa a ganhar destaque no entendimento do sistema nervoso, principalmente pelas correlações feitas entre lesões no cérebro e problemas relacionados ao aprendizado, ao comportamento e memória. A escola frenologista realizava medições no crânio em busca de respostas para o funcionamento do cérebro, mas foi longe demais ao validar preconceitos raciais e de gênero, necessários para dar fôlego a indústria escravagista e a supremacia masculina caucasóide da época (Gould, 1991). Foi desenvolvido um mapa cognitivo do cérebro e uma máquina frenológica, que mensurava a atividade encefálica. Mas como em realidade funciona o cérebro e de forma conseqüente, a mente? Uma primeira abordagem veio dos primeiros mecanismos de computação, e as idéias de uma mente-esponja e uma mente-computador foram utilizadas até meados do século XX, e ainda hoje se faz analogias entre computadores e cérebros. Será que é uma boa analogia? Diferentemente das máquinas de computar, nossos processadores biológicos são ao mesmo tempo seqüenciais e paralelos, e, com exceção de algumas áreas da memória, não processamos informações em matrizes binárias do tipo 0-1. Além disso, nossas mentes podem criar coisas que não existem no mundo real, computadores só podem criar coisas pelas quais foram programados para. A mente pensa, cria e imagina, os computadores são apenas executores de uma tarefa. Posteriormente, em 1992, Leda Cosmides e John Tooby desenvolveram uma noção bastante diferente de como a mente funciona, eles fizeram analogia com um canivete Suíço, a partir de determinados problemas que o organismo enfrentava eles poderiam sacar de ferramentas específicas contidas no canivete para resolução do dado problema (Cosmides e Tooby, 1992). A mente do tipo canivete Suíço foi uma variação da concepção de mente muito em voga na década de 1980, que era a mente modular. Neste modelo, a mente apresentava entradas sensoriais, áreas de memória e percepção, e saídas motoras, subdivididas em módulos com funções bastante específicas, uma variação do funcionamento da mente frenologista bastante aceita ainda hoje. Em seu livro “A pré-história da mente: uma busca das origens da arte, da religião e da ciência”, Steven Mithen faz um relato arqueológico do funcionamento da mente, avaliando as origens evolutivas do cérebro humano, suas adaptações e modificações e nos conduzindo a uma busca sobre como pensamos sobre a mente (Mithen, 2002). Este trabalho aponta para uma mente do tipo “capela”. O modelo se baseia nas catedrais romanescas que apresentavam uma grande nave principal, e pequenas naves laterais. A nave central seria uma nave das faculdades, habilidades e inteligências gerais e as naves menores, laterais, seriam as inteligências especializadas do cérebro. À medida que o organismo se desenvolve e é exposto a experiências e aprendizagens e com base na sua constituição herdada estas inteligências, habilidades e faculdades se desenvolveriam ocupando os espaços da inteligência geral, produzindo uma supercapela, denominado “módulo da meta-representação” (Mithen, 2002). Um breve relato sobre a história das neurociências, para que o leitor tenha um referencial básico e possa se aprofundar nas ideias e no desenvolvimento desta fascinante área do conhecimento humano. 

REFERÊNCIAS: CLOWER, W.T.; FINGER S. Discovering trepanation: the contribution of Paul Broca. Neurosurgery 49(6):1417-25, 2001. COSMIDES, Leda & Tooby, John. Cognitive adaptations for social exchange. In: BARKOW, J. H., COSMIDES, L., TOOBY, J. The adapted mind. New York: Oxford University Press, 1992. p.163-280. DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. FINGER, Stanley. Origins of Neuroscience: a History of explorations into Brain Function. New York, Oxford University Press, 1994. GARDNER, Howard. Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences. New York: Basic Books, 1993. GAZZANIGA S. Michael. & HEATHERTON, Tead. F. Ciência Psicológica: mente, cérebro e comportamento. 2ª imp. rev. Porto Alegre: ArtMed, 2005. GOULD, Stepen J. A falsa medida do homem. São Paulo: Martins Fontes, 1991. HIPOCRATES. Aforismos. São Paulo: Martin Claret, 2003. MITHEN, Steven. A pré-história da mente: uma busca das origens da arte, religião e da ciência. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

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