A motivação pode ser conceituada como um
conjunto de fatores que energizam, dirigem ou sustentam comportamentos
(Gazzaniga e Heaterthon, 2005). Existe um conjunto de comportamentos
controlados pelo hipotálamo, que chamamos de comportamentos motivados, ou seja,
que necessitam de um motivo para acontecer; fome para comer, sede para beber,
abstinência sexual para copular, sono para dormir, filhotes para o cuidado
parental e assim por diante. Neste sentido, motivação está diretamente
relacionada com alostasia, referência ao fato de organismos vivos oscilarem em
suas funções próximos a um ótimo pré-estabelecido ao longo do tempo, em uma função
de onda, subindo e descendo, entre o ponto máximo superior e o ponto mínimo
inferior. Organismos vivos são afastados do equilíbrio para existirem, mas
quando se afastam em demasia do ótimo pode significar o fim. Um exemplo
interessante é a temperatura corporal, que tem seu ótimo em 36,5ºC e oscila
próximo a isso.
A
“Pirâmide das necessidades de Maslow” (figura 1) nos fornece uma organização
hierárquica das motivações. Na base da pirâmide, temos as necessidades
fisiológicas, depois a segurança, depois pertencimento e amor, no quarto
patamar da pirâmide a estima, por último a autorrealização. Interessante notar
que, para alcançarmos os pontos mais altos é necessário antes satisfazer os
degraus anteriores. Quanto mais básica na pirâmide, mais automatizada será a
necessidade, enquanto que a autorrealização requer habilidades e competências
mais sofisticadas, e um córtex pré-frontal, região que funciona como o maestro
do cérebro e suas funções, bastante desenvolvido em primatas e humanos. Esta
área do cérebro está relacionada a planejamento motor, controle das ações,
discernimento das mesmas, avaliação dos atos, entre outras funções denominadas
executivas (Goldberg, 2002)
Figura 1: Pirâmide das Necessidades de Maslow
Um conceito central no entendimento da
motivação é o de impulso, enquanto estados fisiológicos que motivam o organismo
a satisfazer suas necessidades, o que promove a ativação fisiológica é a
excitação (arousal), como a atividade
cerebral aumentada (Gazzaniga e Heaterthon, 2005). A excitação segue a Lei
deYerkes-Dodson, na qual um indivíduo
pouco excitado para uma tarefa estará entediado para executar a mesma e
enquanto excitado excessivamente, pode entrar em colapso por esgotamento. Da
mesma forma, o educador que pretende que seus alunos desempenhem uma tarefa que
exija concentração e autorrendimento não pode chegar num nível de excitação
muito grande, pois prejudicaria a performance na realização da mesma. Também
uma postura com pouca excitação levaria a uma desmotivação pela razão contrária.
A Figura 2 ilustra a relação entre excitação e desempenho, excitação e
motivação, excitação e estresse.

Figura
2: Lei de Yerkes-Dodson, curva de excitação, desempenho humano e estresse.
A ideia de alostasia também será aplicada ao
controle das emoções. Na obra Felicidade Autêntica, Martin Seligmann,
preconizador da psicologia positiva, sustenta que as pessoas com uma visão mais
apurada da realidade são aquelas que oscilam entre levemente felizes (Laetitia) e levemente tristes (Tristitia). A melancolia, uma tristeza
branda, a bile branca dos alquimistas, dos filósofos e pensadores medievais
(Scliar, 2003), necessária à produção intelectual. Na mesma direção, Damásio
(2004) afirma que durante os estados de depressão e ansiedade, nos quais temos
que nos centrar e resolver um problema específico, ocorre diminuição do fluxo
de imagens mentais, uma letargia corpórea, para que o indivíduo se concentre
numa questão em particular. Quando necessitamos de muitas imagens mentais, como
nos momentos de criatividade e necessidade de novidades, um estado de euforia e
entusiasmo geraria um fluxo aumentado de imagens mentais. Neste aspecto, se o
professor deseja que seu aluno se debruce sobre uma lista de exercícios ou um
problema específico, deve conduzi-lo a um estado mais reflexivo e melancólico,
um pouco triste. Mas se o professor deseja seu aluno mais criativo, ou apto a
aceitar uma novidade, pode gerar um estado de euforia, de leve alegria e
entusiasmo, ensejando na criação de novas ideias pelo aumento no fluxo de
imagens mentais.
Mais importante ainda para o educador é compreender
a diferença entre motivação extrínseca,
objetos externos aos quais a atividade está sendo desenvolvida, como uma
recompensa (se passar de ano ganhará uma bicicleta, se for bem na prova,
ganhará horas para jogar games) e a motivação
intrínseca, que se refere ao valor ou os prazeres relacionados
imediatamente com a atividade, sem objetivo ou propósito biológico aparente (o
aluno estuda porque isso estimula seu cérebro, lê literatura porque gosta de
viver as histórias/estórias). Os comportamentos intrinsecamente motivados
ocorrem por si mesmos. Sempre que fornecemos incentivos (motivações
extrínsecas) que não relacionados com a atividade em si (passe de ano que te
dou um vídeo game), enfraquecemos a motivação intrínseca (uma bicicleta por
passar de ano enfraquece o fato de que passar de ano é um grande prêmio em si,
exceto se a bicicleta for dada para que a criança vá para a escola com a mesma).
Outro fator importante relacionado a motivação, diferente da ideia corrente de
que devemos elogiar tudo nas crianças, é que não devemos elogiar uma habilidade
já anteriormente conquistada ou inata, devemos elogiar o esforço desempenhado
na tarefa, elogios pela inteligência acima da média de um aluno pode fazer
pensar que não precisa estudar ou se esforçar, e criar uma maneira enganosa de
interpretar os resultados, o que ocasiona problemas de estima, tédio e baixa
resiliência posteriores, quando as tarefas se tornam mais complexas e o esforço
se faz necessário, fenômeno muito comum no 7º ou 8º ano do ensino fundamental,
quando os conteúdos, nas áreas das ciências, matemática e línguas se tornam
mais complexos e se misturam a miríade de transformações já discutidas próprias
da adolescência (www.nomundodosadolescentes.blospot.com.br). Não se
elogia sempre, nem tampouco aquelas coisas que ganhamos da natureza, mas apenas
nosso esforço em nos mantermos e nos sofisticarmos deve ser elogiado.
Só se elogia o esforço!
Maslow também pesquisou a biografia de 150 grandes personalidades da
história; Winston Churchill, Gandhi, Einstein, Darwin, entre
outros. A partir deste estudo, ele gerou uma lista das 15 características das
pessoas autorrealizadoras listada abaixo. Heyleighen (1992) discute em
pormenores cada uma destas características. A autorrealização parece ser uma
característica humana muito marcante e parece apropriado analisar se não
deveria ser o objetivo último do processo educacional e dos sistemas
motivacionais:
01 - Percepção mais
eficiente da realidade e relações mais satisfatórias com ela.
02 - Aceitação (de
si, dos outros, da natureza).
03 - Espontaneidade,
simplicidade, naturalidade.
04 - Concentração nos
problemas, em oposição ao estar centrado no ego.
05 - Qualidade do
desprendimento, a necessidade de privacidade.
06 - Autonomia,
independência em relação a à cultura e ao meio ambiente.
07 - Pureza permanente
de apreciação.
08 - Experiências
místicas e culminantes.
09 - Sentimento de
parentesco com outros.
10 - Relações
interpessoais mais profundas e intensas.
11 - Estrutura de
caráter democrático.
12 - Discriminação
entre os meios e os fins, entre o bem e o mal.
13 - Senso de humor
filosóficos e não hostil.
14 - Criatividade
auto-atualizadora.
15 - Resistência à
acumulação: a transcendência de qualquer cultura específica
Como podemos analisar ao longo do texto, a motivação é um assunto
amplamente estudado pela psicologia e neurociências, mas ainda controverso,
tendo em vista muitas áreas do conhecimento abordarem a questão e a grande
divergência nos conceitos. A vasta literatura de autoajuda parece também
dificultar o entendimento e muito sobre o tema está em desacordo com alguns
aspectos expostos aqui, como exemplo, a fala de que devemos elogiar todas as
realizações e características positivas em uma criança. O poema publicado
anteriormente neste blog (O fim das culpas e a autorrealização) foi escrito em
homenagem a Abraham Maslow e retrata a saga de uma pessoa em ir de suas culpas
e culpas de sua cultura e, paulatinamente, por meio da autorrealização, se
compreender enquanto ser e estar, enquanto partícula, self, ego, singularidade,
mas também como um fluxo de energia e matéria no universo.
Bibliografia:
DAMÁSIO,
A. Em busca de Espinosa: prazer e dor na
ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
GAZZANIGA,
M. S., HEATHERTON, T. F. Ciência
psicológica: mente, cérebro e comportamento. 2. imp.rev. Porto Alegre:
Artmed, 2005.
GOLDBERG, E. O
cérebro executivo: lobos frontais e a mente civilizada. Rio de Janeiro:
Imago Ed. 2002.
HEYLIGHEN, F. A Cognitive-systemic
reconstruction of Maslow´s Theory of Self-Actualization. Behavioral Science, Volume 37,
1992. pp.39-57.
SCLIAR, M. Saturno
nos trópicos: a melancolia europeia chega ao Brasil. São Paulo: Companhia
das Letras, 2003.
SELIGMAN, M. E. P. Felicidade
autêntica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002
SILVA,
V. L. da. Homeostasia e reostasia. Depto.
Fisiologia e Farmacologia: CCB/UFPE. Disponível em: http://www.crono.icb.usp.br/homeostasiaereostasia.htm. Acesso em:
08.ago.2013.